Adepto da crença de que boas notícias ajudam a desviar o foco da opinião pública dos problemas do país, o ministro da Fazenda, Guido Mantega aproveitou nesta quarta-feira o primeiro respiro do governo em um mês para requentar uma informação antiga e criar um factóide. Após tomar café da manhã com a presidente Dilma Rousseff e governadores do Norte e Nordeste, o ministro convocou uma entrevista coletiva para fazer a 'revelação'. “Pela primeira vez na história, o risco do Brasil é menor do que o risco dos EUA”, afirmou Mantega, baseando-se em dados dos bancos internacionais para afirmar que a probabilidade de o Brasil deixar de pagar suas dívidas é menor do que a do governo americano dar um calote. Apesar de a informação se basear em números reais, Mantega abusou da imprecisão para criar seu factóide e, de quebra, fazer um auto-elogio. "Isso mostra que estamos praticando uma política econômica correta.”
Ao dar a sua boa notícia do dia, o ministro sonegou esclarecimentos sobre três pontos. O primeiro é que o índice usado por ele, o Credit Default Swap (CDS) – uma espécie de seguro usado por investidores como proteção contra a possibilidade de algum devedor não ter condições de quitar suas obrigações – não é o melhor termômetro para esse tipo de avaliação. O melhor parâmetro seria o tradicional 'risco país', conhecido por EMBI (Emerging Markets Bond Index). Os Estados Unidos, no entanto, não podem ser avaliados por esse índice, justamente porque ele mostra o diferencial de risco de um título público de algum país em desenvolvimento em relação aos papéis do Tesouro americano, que não têm risco algum. O CDS, por sua vez, revela de forma bastante indireta o risco de um país (o que ele mostra, na verdade, é um preço para segurar determinado título, o qual, este sim, varia em função do risco percebido). Ainda que o risco americano esteja, de fato, em elevação, economistas ouvidos pelo site de VEJA destacam que a hipótese de um calote da dívida americana é mais do que remota.
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